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Mostrando postagens de junho, 2025

Ela ainda está aqui

Nunca imaginei que pudesse viver assim. A dor de perder alguém de modo tão repentino acaba por maltratar até o mais frio dos homens. Foi assim comigo também, pelo menos até semana passada. Acontece que eu não soube dizer ao certo se era assombração ou saudade da minha falecida esposa, mas comecei a ver, nos dias que se seguiram à sua partida, coisas em minha casa que remetiam a ela, como se algo no universo não quisesse que eu superasse o luto. Então, para fugir das lembranças, mudei de casa. Mas as coisas ficaram estranhas. Os primeiros dias na nova casa foram tranquilos, nada parecia remeter ao passado. Mesmo sentindo que talvez não estivesse pronto para seguir em frente — no fundo, não queria, essa força trouxe novamente memórias dela. Uma, em específico, acredito ter sido o que desencadeou o que estou prestes a dizer. Na arrumação da nova residência, abri uma das caixas e encontrei dois frascos de perfume, um meu e outro dela. Com anos de casados, desenvolvemos o costume de dar u...

Tapete

Das coisas mais estranhas que já me aconteceram e pude detalhar com cautela, a última não é, de longe, a pior delas, tampouco a mais absurda. No entanto, é a que mais me incomodou pelo fato de ser necessário lembrar os fatos cotidianos e saber que me bastava apenas prestar atenção. Conto apenas pelo tédio de não estar fazendo nada mais relevante, e as energias que restavam foram depositadas em investigar algo cujo culpado era somente a minha desatenção. Mas peço que preste muita atenção. Tudo começou com a chegada de um tapete. A morte certa de meu velho vinha com algumas heranças que eu não esperava e às quais não dava muita prioridade. Uma delas, um tapete persa que meu velho havia adquirido como presente em uma de suas transações de negócios no exterior: um vermelho carmim, trabalhado em desenhos hipnóticos que me davam tontura ao olhar e um conforto absurdo ao tocar. Macio, porém pesado de se carregar. Apesar da grande insistência de alguns parentes para vendê-lo, decidi ficar. E...