Pular para o conteúdo principal

Tapete

Das coisas mais estranhas que já me aconteceram e pude detalhar com cautela, a última não é, de longe, a pior delas, tampouco a mais absurda. No entanto, é a que mais me incomodou pelo fato de ser necessário lembrar os fatos cotidianos e saber que me bastava apenas prestar atenção. Conto apenas pelo tédio de não estar fazendo nada mais relevante, e as energias que restavam foram depositadas em investigar algo cujo culpado era somente a minha desatenção. Mas peço que preste muita atenção.

Tudo começou com a chegada de um tapete. A morte certa de meu velho vinha com algumas heranças que eu não esperava e às quais não dava muita prioridade. Uma delas, um tapete persa que meu velho havia adquirido como presente em uma de suas transações de negócios no exterior: um vermelho carmim, trabalhado em desenhos hipnóticos que me davam tontura ao olhar e um conforto absurdo ao tocar. Macio, porém pesado de se carregar. Apesar da grande insistência de alguns parentes para vendê-lo, decidi ficar. Então, estendi-o em frente à minha cama e sob uma mesa que ficava ao lado da mesma cama, para firmá-lo no chão. O tapete era tão grande que acomodava duas pessoas deitadas, de modo que sobrasse espaço para mais alguém que quisesse. Adormeci algumas vezes sobre aquele tapete.

Da história que tanto me incomoda, fora difícil nutrir que o único culpado daquilo ainda me pertencia como fardo. Em minha cabeceira havia alguns objetos estrategicamente posicionados. Dentre eles, uma coruja e três budas verdes perfeitamente alinhados em minha direção com o objetivo de me protegerem durante a noite.

Meus dias repetiam a mesma rotina, sem atropelos ou algo que me fizesse fugir do combinado. Há algumas semanas, passei a trabalhar em home office — detestava, mas não pude escolher. Até que, ao olhar para minha mesa, que se dava próxima, um dos budas se encontrava virado para o outro lado, apenas ele, como se negasse a olhar-me dormir. Tentei ignorar o fato de sua mudança de posição, mas continuou acontecendo dia após dia. Ele era insistente: toda vez que desviava o olhar do gordinho, o mesmo mudava de posição e pouco se importava com o horário. Numa das madrugadas de insônia, fui ao banheiro e, quando retornei, lá estava ele, em completa negação. O arrumei, mas nada adiantava. Na manhã seguinte ao levantar, a mesma coisa. Passei a nutrir uma raiva pelo pequeno que antes me protegia e agora sequer me olhava, em desaforo. Pensei que talvez pudesse ser coisa de energia, então chamei um mestre xamã para limpar o ambiente. Paguei tão caro quanto pagaria num conjunto de budas novos.

E, na manhã seguinte, o mesmo problema: ele me negava, como se eu o tivesse traído de alguma forma, como se eu não fosse digno de sua proteção. Por via das dúvidas, defumei aquele tapete, que ficou com cheiro de fumaça por dias! Num acesso justificável de raiva, peguei o gordinho e o taquei na parede, que se desfez em pedaços de gesso. Dos dois que sobraram, os mais humildes, guardei, e no lugar coloquei uma enorme coruja.

Que, na manhã seguinte, quando me levantei, balançou, foi ao chão e quebrou. Que falta de sorte, pensava. Coloquei um passarinho no lugar e, toda manhã, ao levantar, caía. Parecia obra macabra do destino, me testando, como se algo quisesse me mostrar o que havia de errado. Ainda sonolento, de passos pesados e estressado.

Quis botar um fim nesse drama, não suportava mais o terror de não saber o que acontecia. Comprei pela internet uma câmera, que chegou no mesmo dia, e, na madrugada daquele mesmo dia, coloquei para gravar.

E foi aí que tive um fim. Não era o que esperava, mas logo pude arrumar um culpado para tanto desentendimento com o destino. Acontece que, após deitar em minha cama, quando me levantava, o tapete que estava sob a pequena mesa de cabeceira se mexia, fazendo com que a mesa balançasse e derrubasse as coisas. O fato de o buda estar na ponta fazia com que somente ele virasse. Claro que era o tapete, claro que ainda era eu — mas prefiro acreditar que era culpa do gordinho.

 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gosta de resolver problemas?

Observar as curvas dessa louca havia virado uma rotina que eu insistia em manter, apesar de, após o fim, tê-la jogado à beira do esquecimento. Alguns detalhes do teu corpo ainda me aprisionavam, como delinquente inclinado ao crime ou o divino ao pecado. Apenas fui justo: tentar olhá-la com outros olhos, se não com grande afeto, era quase que impossível, pensava, até que suplicou a eternidade. Por mais absurdo que seja, desenvolvi a impecável habilidade de quebrar o espaço espiritual do carnal. Então, ao dormir, deixava que meu corpo adormecesse e minha alma saísse. Numa dessas viagens, fui até a casa dessa mulher que tanto me suplicava a existência infame. A primeira visita me serviu como observador da tua existência, da tua essência feminina e perversa: um banho quente, o vapor que se alojava em sua pele negra e lhe dava um brilho absurdo, como se pequenos fragmentos de diamantes estivessem presos em tua carne, uma mão que descia e um gemido que subia. Minha curiosidade foi terminad...

Matei porque eu quis!

Encarei por um longo tempo em minha frente, tomando coragem para finalmente fazê-lo. Mas fazer o quê? Por quê? Não sabia, mas senti que deveria. Se foi impulso? Talvez tivesse sido, sim. Mas se não fosse eu, quem seria? A ideia de matá-la veio cedo, logo pela manhã ao chegar ao escritório. Seu primeiro murmúrio me deixou completamente irritada e soube — naquele momento eu soube — que, se continuasse me infernizando de tal absurdo modo, eu teria que fazer o que pensava. Dez horas. Fiz uma rápida pausa para o café. Ela me seguiu, perguntava a todo instante: — O que você vai comer? Vai almoçar onde? — Inferno! Isso é um problema meu!! Um longo silêncio. Após o café e essa súplica, ela se aquietou. Mas via em sua face o incômodo, como se quisesse balbuciar e começar novamente a me irritar. E começou. Via em minha face a infame irritabilidade, a sobrancelha franzida, as rugas aparentes e os rangidos nos dentes. Estava ficando impossível permanecer onde estava. Fui ao banheiro tent...

O pé do Seu Gonçalves

O dia já amanhecera frio; o ar cálido dominava a sombria prenunciação do que aconteceria. O ardor divino começou no banho: Seu Gonçalves ligou o chuveiro e esperou uns minutos até que a água esquentasse – pensara em trocar a resistência do aparelho e sempre adiava o compromisso com a incrédula sensação de inutilidade. Gonçalves era homem fiel, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si; esquecera até de se alimentar por ter ficado horas ajudando uma amiga. Puxou a esponja enchendo-a com sabão, esfregou toda a parte de cima do corpo quando o susto veio, ficou encarando os dedos dos pés, ali, desaparecendo diante dos seus olhos. Saltou para fora do banheiro tão ligeiramente que nem pensou em desligar o registro. Foi se secando, encarando o sumiço de parte do seu pé. – Ué, cadê? Era vago, lento, mas ia desaparecendo; foi trabalhar. Por precaução, colocou uma calça e um tênis. Não gostava de médico; em sua cabeça, “logo, logo passa”. Foi para a obra. – E aí, Seu Gonçalve...