Observar as curvas dessa louca havia virado uma rotina
que eu insistia em manter, apesar de, após o fim, tê-la jogado à beira do
esquecimento. Alguns detalhes do teu corpo ainda me aprisionavam, como
delinquente inclinado ao crime ou o divino ao pecado. Apenas fui justo: tentar
olhá-la com outros olhos, se não com grande afeto, era quase que impossível,
pensava, até que suplicou a eternidade.
Por mais absurdo que seja, desenvolvi a impecável
habilidade de quebrar o espaço espiritual do carnal. Então, ao dormir, deixava
que meu corpo adormecesse e minha alma saísse. Numa dessas viagens, fui até a
casa dessa mulher que tanto me suplicava a existência infame. A primeira visita
me serviu como observador da tua existência, da tua essência feminina e
perversa: um banho quente, o vapor que se alojava em sua pele negra e lhe dava
um brilho absurdo, como se pequenos fragmentos de diamantes estivessem presos
em tua carne, uma mão que descia e um gemido que subia. Minha curiosidade foi
terminada, meu coração estava parando, precisava voltar ao meu corpo.
Logo que tomei novamente o controle do meu corpo, um
susto, uma respiração ofegante e uma dor no peito. Há algumas semanas, um pico
de estresse havia desencadeado em mim problemas cardíacos que eu já
desconfiava. Na noite que se precedeu, fiz novamente essa projeção, pela minha
ambição de vê-la novamente daquele modo, mas encontrei uma personalidade
totalmente diferente. Estava jogada sobre seu imenso sofá verde, no chão uma
garrafa de vinho tombada e uma taça vazia. Vestia uma blusa branca manchada de vinho
que acabara de derrubar; ainda estava molhada e demarcava cada aréola de sua
santidade, um vermelho transparente que grudava no corpo e se tornava pele.
— Eu vejo você... — ela dizia. — Eu vejo você...
Permaneci com meu espírito imóvel, não queria
acreditar que fosse comigo.
Se ajeitou no sofá, sentando sobre a beirada. Tirou a
blusa como se encenasse uma peça perfeita.
— Você gosta de observar, né?
— Você...
— Sim, eu consigo — me interrompeu. — Eu te senti no banho, eu te sinto agora,
eu te vejo agora, e nossa separação não foi suficiente. Nem teu espírito
consegue me esquecer, né? Você gosta disso.
Cada palavra que me falava tomava um tom sacana de sua
parte. Me conhecia tanto quanto eu a conhecia.
Toda vez que minha energia deixava meu corpo para
visitá-la, meu coração parecia desistir de mim. Ainda assim, a visitava,
correndo o enorme risco de ser eterno à tua vista. E foi o que aconteceu, por
descuido, claramente.
— E tu, aparentemente, gosta de resolver problemas,
né? Eu tenho um pra você.
— O que você quer? — respondi.
Ela olhou meu espírito como alma conhecida. O vinho,
que vinha sendo teu amigo, derramou sobre o próprio peito.
— Me fode!
— Você nem sabe se isso é possível.
Ela deu um sorriso de canto de boca, me olhando
reluzir em pura energia.
— Resolve.
Aproximei-me dela lentamente, quase que pairando sobre
o ar. Leve, assim que meu espírito tocou tua pele, um arrepio com um gemido
conhecido explodiu na sala. Deixou que seu corpo caísse no sofá em tesão
absurdo e esperou pelo meu toque, que comecei pelo teu pescoço. Realmente não
imaginava que tal acontecimento seria capaz: tocá-la em energia. Desci até seus
peitos, lentamente, sentindo tua carne esticar-se em arrepios pelo tesão. Seu
peito se enrijeceu pelo desejo de me ter dentro dela, e, sem pressa, fui a
transformando em energia também. Pouco a pouco fui descendo até suas coxas se
tremerem com o beijo.
Meu coração passou a denunciar em evidência o que
estávamos fazendo. De fato, senti como um chamado obsessivo para que eu
voltasse ao meu corpo. Ignorei. Queria me tornar perpétuo ao que cultivamos.
Minha boca, em efeito enérgico, tocou teu sexo como quem toca um saxofone numa
melodia perfeita, em dedilhados tão específicos que bastou apenas uma nota a
mais para que se acabasse em gozo. Naquele instante, ela havia se tornado outra
coisa, outra forma, outra mulher. Se tornou imensidão, se tornou um céu infinito
em estrelas — e meu corpo se tornou apenas um corpo esquecido sobre a cama.
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