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Matei porque eu quis!

Encarei por um longo tempo em minha frente, tomando coragem para finalmente fazê-lo. Mas fazer o quê? Por quê? Não sabia, mas senti que deveria. Se foi impulso? Talvez tivesse sido, sim. Mas se não fosse eu, quem seria?

A ideia de matá-la veio cedo, logo pela manhã ao chegar ao escritório. Seu primeiro murmúrio me deixou completamente irritada e soube — naquele momento eu soube — que, se continuasse me infernizando de tal absurdo modo, eu teria que fazer o que pensava.

Dez horas. Fiz uma rápida pausa para o café. Ela me seguiu, perguntava a todo instante:
— O que você vai comer? Vai almoçar onde?
— Inferno! Isso é um problema meu!!

Um longo silêncio. Após o café e essa súplica, ela se aquietou. Mas via em sua face o incômodo, como se quisesse balbuciar e começar novamente a me irritar. E começou.

Via em minha face a infame irritabilidade, a sobrancelha franzida, as rugas aparentes e os rangidos nos dentes. Estava ficando impossível permanecer onde estava. Fui ao banheiro tentar respirar um pouco. Minhas mãos estavam tremendo.

Não sabia dizer com alguma certeza o porquê de me afetar tanto, de me causar tanto estresse, que qualquer pessoa que se aproxima de mim sofre com as consequências desse desastre.

Então decidi que iria matá-la.

Das onze horas até às quatorze, fiquei bolando dentro da minha cabeça a melhor forma de acabar com isso, sem que ninguém desconfiasse. Passavam-se pela minha cabeça diversas formas, formas que não falarei aqui por questões de privacidade. Não quero que pensem que sou louca ou dissimulada. Estou apenas cansada, apenas isso.

Faltava apenas meia hora para dar início ao meu plano. Peguei um pequeno sachê e coloquei no bolso. Sabia que, assim que eu saísse para almoçar, ela me seguiria. Essa perseguição obsessiva seria o que levaria ao seu trágico fim. O redondo relógio na porta de saída me assobiava o compromisso:
“tic tac, tic tac, tic tac”

O que eu estava prestes a fazer era tão absurdo que, de preparo, havia mandado mensagem para um restaurante, tal qual distante e duvidoso, pé de bairro, para que adiantasse a refeição. Não queria permanecer por muito tempo. Não poderiam me identificar, tampouco gravar meu rosto.

Quatorze horas. Como havia imaginado, desci do prédio e ela me seguiu. Curiosa, tagarelando em minha cabeça:
— Vai almoçar onde? Tão longe, né? Não chega nunca?
Apenas permaneci em silêncio.

Ao chegar no restaurante, dei meu nome na entrada e eles souberam. Sentei-me à mesa, com o encosto à minha espreita. Assim que todo o salão se esvaziou, pude finalmente acometê-la.

A matei da forma mais cruel possível: pedi um x-tudo artesanal completo, uma porção grande de batata com cheddar e bacon, mais uma porção grande de isca de frango com um refrigerante de dois litros, e comi tudo sozinha.

Pude finalmente acabar com essa fome que incomodava durante toda a manhã.
Não me chame de louca! Era apenas a fome que matei dentro de mim.


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