Encarei por um longo tempo em minha frente, tomando coragem para finalmente fazê-lo. Mas fazer o quê? Por quê? Não sabia, mas senti que deveria. Se foi impulso? Talvez tivesse sido, sim. Mas se não fosse eu, quem seria? A ideia de matá-la veio cedo, logo pela manhã ao chegar ao escritório. Seu primeiro murmúrio me deixou completamente irritada e soube — naquele momento eu soube — que, se continuasse me infernizando de tal absurdo modo, eu teria que fazer o que pensava. Dez horas. Fiz uma rápida pausa para o café. Ela me seguiu, perguntava a todo instante: — O que você vai comer? Vai almoçar onde? — Inferno! Isso é um problema meu!! Um longo silêncio. Após o café e essa súplica, ela se aquietou. Mas via em sua face o incômodo, como se quisesse balbuciar e começar novamente a me irritar. E começou. Via em minha face a infame irritabilidade, a sobrancelha franzida, as rugas aparentes e os rangidos nos dentes. Estava ficando impossível permanecer onde estava. Fui ao banheiro tent...
Observar as curvas dessa louca havia virado uma rotina que eu insistia em manter, apesar de, após o fim, tê-la jogado à beira do esquecimento. Alguns detalhes do teu corpo ainda me aprisionavam, como delinquente inclinado ao crime ou o divino ao pecado. Apenas fui justo: tentar olhá-la com outros olhos, se não com grande afeto, era quase que impossível, pensava, até que suplicou a eternidade. Por mais absurdo que seja, desenvolvi a impecável habilidade de quebrar o espaço espiritual do carnal. Então, ao dormir, deixava que meu corpo adormecesse e minha alma saísse. Numa dessas viagens, fui até a casa dessa mulher que tanto me suplicava a existência infame. A primeira visita me serviu como observador da tua existência, da tua essência feminina e perversa: um banho quente, o vapor que se alojava em sua pele negra e lhe dava um brilho absurdo, como se pequenos fragmentos de diamantes estivessem presos em tua carne, uma mão que descia e um gemido que subia. Minha curiosidade foi terminad...