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Matei porque eu quis!

Encarei por um longo tempo em minha frente, tomando coragem para finalmente fazê-lo. Mas fazer o quê? Por quê? Não sabia, mas senti que deveria. Se foi impulso? Talvez tivesse sido, sim. Mas se não fosse eu, quem seria? A ideia de matá-la veio cedo, logo pela manhã ao chegar ao escritório. Seu primeiro murmúrio me deixou completamente irritada e soube — naquele momento eu soube — que, se continuasse me infernizando de tal absurdo modo, eu teria que fazer o que pensava. Dez horas. Fiz uma rápida pausa para o café. Ela me seguiu, perguntava a todo instante: — O que você vai comer? Vai almoçar onde? — Inferno! Isso é um problema meu!! Um longo silêncio. Após o café e essa súplica, ela se aquietou. Mas via em sua face o incômodo, como se quisesse balbuciar e começar novamente a me irritar. E começou. Via em minha face a infame irritabilidade, a sobrancelha franzida, as rugas aparentes e os rangidos nos dentes. Estava ficando impossível permanecer onde estava. Fui ao banheiro tent...
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Gosta de resolver problemas?

Observar as curvas dessa louca havia virado uma rotina que eu insistia em manter, apesar de, após o fim, tê-la jogado à beira do esquecimento. Alguns detalhes do teu corpo ainda me aprisionavam, como delinquente inclinado ao crime ou o divino ao pecado. Apenas fui justo: tentar olhá-la com outros olhos, se não com grande afeto, era quase que impossível, pensava, até que suplicou a eternidade. Por mais absurdo que seja, desenvolvi a impecável habilidade de quebrar o espaço espiritual do carnal. Então, ao dormir, deixava que meu corpo adormecesse e minha alma saísse. Numa dessas viagens, fui até a casa dessa mulher que tanto me suplicava a existência infame. A primeira visita me serviu como observador da tua existência, da tua essência feminina e perversa: um banho quente, o vapor que se alojava em sua pele negra e lhe dava um brilho absurdo, como se pequenos fragmentos de diamantes estivessem presos em tua carne, uma mão que descia e um gemido que subia. Minha curiosidade foi terminad...

Ela ainda está aqui

Nunca imaginei que pudesse viver assim. A dor de perder alguém de modo tão repentino acaba por maltratar até o mais frio dos homens. Foi assim comigo também, pelo menos até semana passada. Acontece que eu não soube dizer ao certo se era assombração ou saudade da minha falecida esposa, mas comecei a ver, nos dias que se seguiram à sua partida, coisas em minha casa que remetiam a ela, como se algo no universo não quisesse que eu superasse o luto. Então, para fugir das lembranças, mudei de casa. Mas as coisas ficaram estranhas. Os primeiros dias na nova casa foram tranquilos, nada parecia remeter ao passado. Mesmo sentindo que talvez não estivesse pronto para seguir em frente — no fundo, não queria, essa força trouxe novamente memórias dela. Uma, em específico, acredito ter sido o que desencadeou o que estou prestes a dizer. Na arrumação da nova residência, abri uma das caixas e encontrei dois frascos de perfume, um meu e outro dela. Com anos de casados, desenvolvemos o costume de dar u...

Tapete

Das coisas mais estranhas que já me aconteceram e pude detalhar com cautela, a última não é, de longe, a pior delas, tampouco a mais absurda. No entanto, é a que mais me incomodou pelo fato de ser necessário lembrar os fatos cotidianos e saber que me bastava apenas prestar atenção. Conto apenas pelo tédio de não estar fazendo nada mais relevante, e as energias que restavam foram depositadas em investigar algo cujo culpado era somente a minha desatenção. Mas peço que preste muita atenção. Tudo começou com a chegada de um tapete. A morte certa de meu velho vinha com algumas heranças que eu não esperava e às quais não dava muita prioridade. Uma delas, um tapete persa que meu velho havia adquirido como presente em uma de suas transações de negócios no exterior: um vermelho carmim, trabalhado em desenhos hipnóticos que me davam tontura ao olhar e um conforto absurdo ao tocar. Macio, porém pesado de se carregar. Apesar da grande insistência de alguns parentes para vendê-lo, decidi ficar. E...

Uma Memória Feliz

— Não, Darlene! Eu não vou passar na casa da sua mãe na volta! — Mas eu estou te pedindo! César tomou as chaves do carro e saiu esperneando. Em sua cabeça, passavam-se diversos xingamentos inimagináveis — alguns sequer existiam — e, ao inventar um novo, ele pegava o caderno no porta‑luvas, a caneta atrás da orelha e escrevia, rindo tanto que chegava a quase se mijar de tanto gozar das próprias piadas. Esquecia o nervosismo, mas logo retornava à feição fria da rotina cansada. Eram oito horas da manhã; ele ainda nem havia saído para trabalhar quando a esposa o sentenciou de novo: — Vá ver minha mãe, ela está causando problemas outra vez. Ele detestava a sogra. Na verdade, passara a detestá‑la logo após ela perder o marido. A velha tornara-se insuportável — confusões com vizinhos, com crianças que brincavam na rua e até com o próprio reflexo no espelho; sua memória curta a fazia esquecer a própria fisionomia. César era mestre de obras e havia sido contratado por uma empresa para...

Coisas do pai

Um silêncio sepulcral tomou conta da casa, uma poltrona velha rangia com o balançar de pernas de um homem nervoso, mas em silêncio. A mão do sujeito foi ao bolso arrancando de lá um isqueiro, a outra sob as marcas de sangue foi até uma caixa de charuto que há dias esperava declínio. Ascendeu. A cada trago no cubano, memórias cruzavam a cabeça atormentada do homem, o sangue, o machado, o tremor e nervosismo da primeira morte, em seu anular esquerdo, acima da aliança de casamento havia anel de pedra verde que passara de herança, pai para filho. “ A hereditariedade é uma merda” pensou, dos três filhos, Jorge havia sido o único a assumir o império que o pai deixara, logo se arrependera.  Sua mulher o assistia da cozinha, o balcão de cortes se dava justamente à poltrona da sala na qual pretensiosamente organizou para que pudesse assistir o parceiro.  O olhar da mulher se deteve nos arranhões no pescoço, descera aos rasgos na camisa, o antebraço ainda ensanguentado, pudera sentir a ...

Sua carta desaparecida

Essa havia sido a penúltima carta de amor de Naomi, não pelo contexto das palavras ou por seu conteúdo, mas pela sinceridade. Alguma em coisa em meu coração já esperava por este momento, só não imaginava que pudesse ser tão cedo.  Eu a olhei nos olhos na primeira manhã depois que saímos da maternidade e tinha certeza que no brilho castanhos havia algo quiçá da felicidade, tomamos café, almoçamos e via como encarava nosso filho recém nascido e tive certeza, ele de algum modo a salvaria de toda amargura. Eu estava errado. Não dera sequer 6 meses do nascimento do nosso filho quando encontrei na cozinha sua “carta de amor” escrita com quatro palavras num papel amassado, como se tivesse desistido no processo e retomado a coragem no caminho. “eu não posso, desculpa”. Sobre a pia Naomi deixou uma mamadeira com leite morno, o que me dizia que fazia menos de uma hora que partiu, no congelador algumas garrafas com seu leite materno para congelar, nosso bebê ainda estava dormindo, então...