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Sua carta desaparecida

Essa havia sido a penúltima carta de amor de Naomi, não pelo contexto das palavras ou por seu conteúdo, mas pela sinceridade. Alguma em coisa em meu coração já esperava por este momento, só não imaginava que pudesse ser tão cedo.  Eu a olhei nos olhos na primeira manhã depois que saímos da maternidade e tinha certeza que no brilho castanhos havia algo quiçá da felicidade, tomamos café, almoçamos e via como encarava nosso filho recém nascido e tive certeza, ele de algum modo a salvaria de toda amargura. Eu estava errado.

Não dera sequer 6 meses do nascimento do nosso filho quando encontrei na cozinha sua “carta de amor” escrita com quatro palavras num papel amassado, como se tivesse desistido no processo e retomado a coragem no caminho. “eu não posso, desculpa”.

Sobre a pia Naomi deixou uma mamadeira com leite morno, o que me dizia que fazia menos de uma hora que partiu, no congelador algumas garrafas com seu leite materno para congelar, nosso bebê ainda estava dormindo, então o deixei no berço e corri pelas ruas ao redor de casa na esperança de ainda encontra-la partindo, fui numa praça próxima onde era costume seu estar, no entanto não havia ninguém além de alguns moradores de rua jogados no próprio pecado, voltei para onde meu filho estava e o encontrei chorando. Peguei a mamadeira que ela deixou e o acalmei, dei-lhe um banho e fui para minha mãe.

- Oi meu amor, como está o netinho da Vovó – Estendeu os braços para pegar o menino enquanto me encarava. Me perguntou. – Onde está a mamãe?

Por mais que eu soubesse que esse momento poderia chegar, não me preparei o suficiente para não me abalar, então quando a lagrima quis descer tive que fazer uma força enorme para não e segurei a respiração, mas mãe sempre sabe. Não precisei responder, entendeu tudo com o olhar.

- O que pretende fazer agora?

- Eu preciso procurar ela, mãe.

- Talvez ela não quisesse ser procurada, por isso saiu sem se despedir. – Falava com uma voz calma.

- Não se trata somente disso, eu não confio no mundo e ela sozinha e vulnerável... Me assusta.

Houve por alguns segundos um silêncio comum de quem pensa numa resposta. Até que minha mãe o quebrou.

- Então não há nada que eu diga que possa te convencer, seu filho está aqui quando voltar e não se engane, ele também precisa de um pai, agora tanto quanto precisaria da mãe.

Nunca me esqueci da primeira crise de pânico da Naomi, estávamos dormindo até que após um pesadelo correu para o banheiro chorando, ligou o chuveiro gelado e ficou, segundos depois a segui, encontrei-a num ataque de pânico onde batia sua cabeça contra a parede do box, Consegui acalma-la e pedi para que me explicasse o que era.

Acontece que Naomi havia sofrido uma tentativa de estupro num estacionamento pouco iluminado, isso explicava sua ânsia por dormir de luz acesa. O que precedeu esse acontecimento foram conhecer pouco a pouco as faces da sua personalidade, conheci efetivamente sua depressão e os seus medos mais secretos e mesmo assim decidi ficar e tomei por ela uma responsabilidade que não cabia a mim decidir. Mas tomei mesmo assim. Uma das primeiras coisas que fiz foi visitar alguns dos amigos mais próximos da minha mulher, me parecia tão óbvio que pensei realmente que ela poderia ter ido se abrigar na casa de um deles. Um não sabia onde ela estava, outros não tinham notícias há dias da amiga e outros sequer se dispuseram a me ajudar, pensei que talvez a escondesse de mim, mas logo me desapeguei desse pensamento. Também fui atrás de um ex namorado do qual eu guardava um profundo rancor por tê-la agredido no passado, se Naomi estivesse querendo seguir em frente precisaria resolver o passado primeiro. E eu estava errado mais uma vez.

Já havia passado metade do dia e eu ainda não tinha descoberto nada sobre seu abandono, apenas sua carta de poucas palavras e afeto de muitas memórias, voltei para casa e me deparar com o silêncio me assustou e dilacerou meus sentimentos de dentro para fora. Sentei-me no velho sofá e encarei a pia com a louça da noite anterior, ela ainda me parecia feliz, como era costume nosso, cozinhei uma de nossas receitas, coxa c/ sobrecoxa ao molho de laranja, comemos, bebemos meia taça de vinho, encaramos nossa prole como se o mundo dependesse apenas de nós dois e dependia, ao menos disso eu estava certo.

Outra coisa que se passou em minha cabeça nesses momentos de lembranças fora o quando descobrimos a gravidez, ela estava assustada, alguém que há muito fugira do meio familiar estava prestes a formar a própria família, quanto a mim, a tranquilidade vinha por planejar ser pai desde muito novo, pouco a pouco fui curando os medos de Naomi com a ideia de que talvez fosse bom para nós dois. Não pude esquecer das diversas vezes em que chorou em meu ombro pelas incertezas do futuro, mas fui seu amigo, sempre. Alguma coisa em nosso quarto me chamava, uma voz sussurrante e perdida em meio à minha amargura indiscreta, hipnotizado fui até o guarda-roupa e comecei a revirá-lo como quem sabe o que procura, eu não sabia, mas o revirei mesmo assim, cheguei até uma caixa de sapato com alguns documentos e notas fiscais, virei-a na cama olhando papéis um por um. Prestes a terminar encontrei um contrato de locação de um depósito perto à um posto de gasolina no centro da cidade não muito distante de casa, o suficiente para ir a pé.

Não esperava que coisas encontrar quando chegasse lá, o que ela teria guardado que esconderia há tanto de mim assim, sons distantes ecoaram no céu de uma tempestade que vinha chegando, antes que pudesse alcançar o destino, a chuva me alcançou, como um prelúdio da descoberta, como se fizesse necessário o caos, a dificuldade para conseguir algo. Apesar de monitorada por câmeras não havia segurança algum tomando conta do lugar, poderiam entrar e sair quem quisesse que não interromperiam o momento. Fui até o galpão de numero treze, nosso numero da sorte. Olhei-o inteiro antes de abrir e vi o cadeado aberto.

A chuva se intensificou, e inundava lentamente o corredor onde me encontrava, raios, trovões e desilusão, ergui sem romantismo a portão de ferro afim de encontrar algo que me levasse até Naomi, de primeiro o que vi foi uma cadeira caída no centro do depósito, em seguida meus olhos se fixaram nos pés suspensos no ar como quem levanta voo. Lá estava Naomi, suspensa sobre uma corda rodeando seu pescoço, finalmente a encontrei, apesar de horrorizado por presenciar o fim do seu enforcamento, havia em seus olhos uma serenidade irreconhecível. Seu suicídio havia se tornado sua ultima carta de amor perdida, ainda assim, partiu levando um pedaço de mim e deixando um pedaço dela.

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