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Coisas do pai


Um silêncio sepulcral tomou conta da casa, uma poltrona velha rangia com o balançar de pernas de um homem nervoso, mas em silêncio. A mão do sujeito foi ao bolso arrancando de lá um isqueiro, a outra sob as marcas de sangue foi até uma caixa de charuto que há dias esperava declínio. Ascendeu. A cada trago no cubano, memórias cruzavam a cabeça atormentada do homem, o sangue, o machado, o tremor e nervosismo da primeira morte, em seu anular esquerdo, acima da aliança de casamento havia anel de pedra verde que passara de herança, pai para filho. “A hereditariedade é uma merda”pensou, dos três filhos, Jorge havia sido o único a assumir o império que o pai deixara, logo se arrependera.

 Sua mulher o assistia da cozinha, o balcão de cortes se dava justamente à poltrona da sala na qual pretensiosamente organizou para que pudesse assistir o parceiro. 
O olhar da mulher se deteve nos arranhões no pescoço, descera aos rasgos na camisa, o antebraço ainda ensanguentado, pudera sentir a tensão do homem e sabia que havia feito o que tinha de ser feito, afinal, aquele seria seu legado, queria pensar assim, por isso não ousava dizer nada em momentos de tensão. Jorge precisava encarar este epílogo sozinho. 

- Jorge! A janta está pronta. 

O homem olhou o relógio suspenso na parede.  – Oito e meia da noite, ainda parece cedo... – pensou. 

Levantou-se vagarosamente permitindo sentir o tinir do joelho e a fadiga das costas, estralou os dedos e caminhou ao banheiro, na parede que se dava ao cômodo, retratos, passados e memórias do pai, aquela casa não era sua, no entanto o machado enforcado na parede com as inicias JV no cabo, se tornou parte de quem ele seria, não o limpou, fazia questão de deixar o sangue secar e se lembrar do horror de suas decisões. No banheiro lavou as mãos, no espelho não se reconheceu, a torneira que abandonara aos gotejos mais tarde o deixaria na penumbra. 

Sentou-se à mesa e esperou ser servido, suas filhas se juntaram a ele e ao perceber o silêncio do pai cochichavam entre si. O homem encarou o prato vazio como quem olhava o abismo, sentiu sua mulher aproximar-se com a comida e não ousou olha-la nos olhos, apenas silêncio. O serviu de arroz e feijão, a salada ele mesmo se serviria à parte, até que o seu horror se consumou à sua frente, a luta absurda se levantava a cabeça ou não, com certa relutância olhou. 

O desconforto tomou conta de suas mãos ainda húmidas, um tremor febril percorreu até os pesadelos mais íntimos do homem, a silhueta do animal posto sobre a mesa que horas antes havia sido abatido pelo próprio homem fez com que se levantasse em ódio e fosse para rua.

 - “Comer tudo bem, agora matar o bicho pra depois comer é putaria!” – Pensou ao sair de supetão.

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