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Janela faminta

Naquela madrugada eu o tinha visto pousar sobre o cercado do vizinho à frente, a noite era quente e a falta de ar condicionado dentro de casa me fazia abrir a janela na expectativa que o ar circulasse diminuindo o terror febril do quarto no segundo andar, ainda estava me acostumando com a cadeira de rodas então evitava me deslocar abruptamente para os outros cômodos poupando esforços caso algo inesperado viesse acontecer. Mas aquele animal negro de plumagem fosca, olhos profundos e caídos também beirava o inesperado ou era o presságio de morte que muitos já esperavam vindo daquela moradia. Fixei meus olhos no animal, observando-o sob a proteção escura do dormitório. Mesmo assim ele me notara o observando e sua cabeça pareceu-me girar em minha direção, nos seus olhos mortos uma luz verde se ascendeu, assustado empurrei-me contra o parapeito da janela tombando minha cadeira, arrastei-me até a cama e deitei com aquela imagem em meus pensamentos, o quarto escuro, a janela esquecida abe...

Mensagem para quem

- Um pedaço de papel? - Sim, juiz. Um pedaço de papel. - Por que essas pessoas se matariam por um pedaço de papel? - Eu não sei, todas as vítimas sem exceções deixaram um adeus. E todas com a mesma frase “Não leiam o papel” - Policial, onde está esse papel agora? O Juiz fitou o oficial, esperava uma resposta positiva, que soubesse do papel. Mas logo se decepcionaria com a resposta. - Não sabemos! Esse é o problema. É como se o autor do papel soubesse que àquelas pessoas se matariam. Parece que ele conta com isso, então vai até o local e recolhe o papel. Bom, isso é a nossa teoria. - Não é possível, mas que droga está escrito naquele papel?! – O juiz estava impaciente. – Me fale da primeira vítima. - Camila Caramez, 20 anos. Universitária. Cursava Engenharia. Conversamos com alguns dos colegas dela e todos pareciam ter uma visão bem positiva dela. “linda” “carismática” “amiga” “otimista” “alegre”. Sem nenhum inimigo aparente. - Sempre há alguém! - Bom, começaram a se...

O Malear de quem ama

- Não foram os cabelos, muito menos aquela maldita boca que deixou Samuel louco de desejo. Não foram as curvas do seu corpo, definitivamente não foi a curva do seu corpo, o sorriso? Talvez, ela tem um sorriso encantador e qualquer um que a olhasse iria à loucura. Tanto homens quanto mulheres, ela sabia disso, ela gostava disso. Não, eu não sei o motivo dela fazer isso. Sei lá, sumir assim do nada deixando apenas uma carta de adeus no computador! Não parece algo que ela faria! - Como sabe da carta de adeus? Em momento nenhum eu falei da carta de adeus. - As notícias correm, eu tinha um vínculo com ela, sabe. - Precisamos encontrá-la, sabe pra onde ela iria?    - Curitiba, ela era louca por Curitiba! Amava o clima frio. - Amava? - Amava, ama. Isso não importa agora. Ela foi embora! - Continue, sobre Curitiba... - Viajamos uma vez para lá. Foi interessante, bebemos muito. Aconteceram umas coisas que eu não esperava. - Que tipo de coisas? - Naquela viajem eu co...

O pé do Seu Gonçalves

O dia já amanhecera frio; o ar cálido dominava a sombria prenunciação do que aconteceria. O ardor divino começou no banho: Seu Gonçalves ligou o chuveiro e esperou uns minutos até que a água esquentasse – pensara em trocar a resistência do aparelho e sempre adiava o compromisso com a incrédula sensação de inutilidade. Gonçalves era homem fiel, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si; esquecera até de se alimentar por ter ficado horas ajudando uma amiga. Puxou a esponja enchendo-a com sabão, esfregou toda a parte de cima do corpo quando o susto veio, ficou encarando os dedos dos pés, ali, desaparecendo diante dos seus olhos. Saltou para fora do banheiro tão ligeiramente que nem pensou em desligar o registro. Foi se secando, encarando o sumiço de parte do seu pé. – Ué, cadê? Era vago, lento, mas ia desaparecendo; foi trabalhar. Por precaução, colocou uma calça e um tênis. Não gostava de médico; em sua cabeça, “logo, logo passa”. Foi para a obra. – E aí, Seu Gonçalve...