Naquela madrugada eu o tinha visto pousar sobre o cercado do vizinho à frente, a noite era quente e a falta de ar condicionado dentro de casa me fazia abrir a janela na expectativa que o ar circulasse diminuindo o terror febril do quarto no segundo andar, ainda estava me acostumando com a cadeira de rodas então evitava me deslocar abruptamente para os outros cômodos poupando esforços caso algo inesperado viesse acontecer. Mas aquele animal negro de plumagem fosca, olhos profundos e caídos também beirava o inesperado ou era o presságio de morte que muitos já esperavam vindo daquela moradia. Fixei meus olhos no animal, observando-o sob a proteção escura do dormitório. Mesmo assim ele me notara o observando e sua cabeça pareceu-me girar em minha direção, nos seus olhos mortos uma luz verde se ascendeu, assustado empurrei-me contra o parapeito da janela tombando minha cadeira, arrastei-me até a cama e deitei com aquela imagem em meus pensamentos, o quarto escuro, a janela esquecida abe...
Imagine que você está sentado(a) em um sofá agora, você se levanta, vai até a cozinha e prepara o café, no mesmo ambiente uma voz abafada vem ganhando tom e ficando cada vez mais alta, essa voz por sua vez cita literariamente cada movimento, cada gesto seu, sua vida neste momento está sendo narrada! Mas você determina suas ações ou suas ações é determinada por esse narrador misterioso? A magia da literatura, é imersiva, misteriosa e apaixonante. Mas que tipo de narrador eu sou? Boa viagem!