Naquela madrugada eu o tinha
visto pousar sobre o cercado do vizinho à frente, a noite era quente e a falta
de ar condicionado dentro de casa me fazia abrir a janela na expectativa que o
ar circulasse diminuindo o terror febril do quarto no segundo andar, ainda
estava me acostumando com a cadeira de rodas então evitava me deslocar
abruptamente para os outros cômodos poupando esforços caso algo inesperado
viesse acontecer. Mas aquele animal negro de plumagem fosca, olhos profundos e
caídos também beirava o inesperado ou era o presságio de morte que muitos já esperavam
vindo daquela moradia.
Fixei meus olhos no animal,
observando-o sob a proteção escura do dormitório. Mesmo assim ele me notara o
observando e sua cabeça pareceu-me girar em minha direção, nos seus olhos mortos
uma luz verde se ascendeu, assustado empurrei-me contra o parapeito da janela tombando
minha cadeira, arrastei-me até a cama e deitei com aquela imagem em meus
pensamentos, o quarto escuro, a janela esquecida aberta e a paralisia
temporária das minhas pernas, a condição perfeita para um cenário doentio e
assim foi. Vez ou outra durante o fim da noite eu via a silhueta do animal
pairar em minha janela, também me observando, mas quando jogava o flash do
celular em sua direção, nada. Depois novamente a imagem absurda do bicho
insistia em me cobrar atenção, apenas fechava meus olhos e fingia dormir até
finalmente dormir.
Nos dias seguintes a rotina
passara a ser a mesma, me espreitava na janela para assistir à novela do
animal, um casal de idosos moravam frente à minha casa, eram sozinhos, porém a cada
trimestre seus cinco filhos vinham visitar, ouvia-se discussões vindo daquela
casa, muitas vezes gritos e se a velhice não os matasse, com certeza acabariam
matando um ao outro. Ninguém ousaria intervir.
- Você ainda não espantou esse
animal daí? – Reclamava a velha ao marido.
- Eu já tentei, mas a peste
não vai embora. Deve estar com fome.
O homem assim como eu também
havia notado uma espécie de apetite estranho vindo do pássaro, algo que talvez
fosse insaciável, o velho encarava-o e depois encarava a mulher e o animal fixo
no homem.
- Eu vou te alimentar! Se é
isso que você quer.
Abriu o portão, saiu e minutos
depois voltou com uma sacola cheia com o que parecia ser uma carcaça de porco
beirando a podridão. Jogou no chão e o pássaro desceu para cheirar.
- Isso deve resolver. – Disse
o velho dando de costas para o animal.
Mas o bicho tinha fome de
outra coisa, de algo mais vivo, de algo mais podre que a existência poderia
dar. Tinha fome do quê?
A noite passou e o sol gritara
céu a cima, o odor fúnebre da carcaça de porco intocada pelo animal começara a
se espalhar pelas casas ao redor.
- Você ainda não espantou esse
animal e pra melhorar esse cheiro horrível de cadáver ou você toma banho ou
joga essa carcaça fora, um dos dois está fedendo. – Novamente a mulher dizia
para o marido, que apenas riu sarcasticamente.
Mas em seus olhos o
entendimento tomava clareza, estava imaginando qual érea a fome do animal, algo
mais vivo, algo mais podre.
- Então vai ser assim? Você
realmente quer que eu faça isso? Tudo bem... – Conversava o velho com a Ave.
Eu o vi entrar dentro de casa,
pegar sua velha espingarda enferrujada apontar para a cabeça da sua inquietação
e então tocarem a campainha com pressa.
- Quem é? – Reclamou.
- É o Bastião, está um cheiro
horrível de carniça vindo daí, as crianças estão tossindo muito, resolve logo o
problema com esse bicho.
O velho abriu o portão ainda
segurando a espingarda.
- Ainda tem alguma outra
reclamação?
O homem olhou a espingarda
como quem é questionado por olhar a mulher de outro e apenas calou-se e saiu.
Sua mulher que preparava o almoço saíra pela cozinha com seu cutelo na mão.
Olhou para mim a observando na janela e acenou com a cabeça.
O fechou o portão e sentiu
algo molhado escorre sobre suas costas, a camisa ligeiramente grudou em sua
pele, passou a mão e viu o sangue sujar sua camisa favorita.
- Ah sua desgraçada! –
Sentindo o corpo dormente virou-se para a mulher e apontou a espingarda em sua
direção, mas quando pensou em puxar o gatilho seu corpo caíra nas trevas da
mulher.
- Ele tem fome é disso, seu
animal. – Resmungou a velha.
Mas o bicho tinha fome de
outra coisa, algo mais podre, algo mais vivo.
A mulher puxara a cutela
fincada na cabeça do marido enquanto eu assistia tudo em completo pânico e
paralisado pelo horror do que acabara de ver, ela também me observava. Arrastou
o corpo do homem para longe do portão esperando que o bicho o devorasse. Sorriu
para mim e caminhou em direção ao portão como quem me desejasse, caí assustado
da cadeira e fiquei imóvel no chão.
Minutos se passaram e
pareceram uma eternidade, a noite caiu e parecera que um ano inteiro de terror,
quando tive forças para me levantar e ir até a janela pude ver. A mulher estava
caída próxima ao velho, enquanto o urubu a devorava faminto, podia-se escutar
os gemidos da velha que ainda estava viva, porém já sem forças para reagir,
suas entranhas abertas e sangue para todo lado até que a finalmente a morte a
beijou como quem lhe salva da dor. Não sei exatamente o que aconteceu entre
minha queda e a fome do pássaro, apenas liguei para a policia e fui dormir.
Por mais obscuro que fosse os acontecimentos passados, o que precedeu aquela madrugada me deixou em completo pânico. Quando amanheceu e a polícia finalmente chegou, os corpos já não estavam mais lá, o urubu maldito também fez ausência, sem sangue, sem morte, sem o casal de idosos que lá moravam. Nada, apenas silêncio e calmaria.
Toda noite ainda ouvia os
leves gemidos da idosa e a silhueta do pássaro em minha janela, com seus olhos
verdes e brilhantes para minha alma. Nunca mais me espreitei por janela alguma e velho insiste em gritar socorro.
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