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Uma Memória Feliz

— Não, Darlene! Eu não vou passar na casa da sua mãe na volta! — Mas eu estou te pedindo! César tomou as chaves do carro e saiu esperneando. Em sua cabeça, passavam-se diversos xingamentos inimagináveis — alguns sequer existiam — e, ao inventar um novo, ele pegava o caderno no porta‑luvas, a caneta atrás da orelha e escrevia, rindo tanto que chegava a quase se mijar de tanto gozar das próprias piadas. Esquecia o nervosismo, mas logo retornava à feição fria da rotina cansada. Eram oito horas da manhã; ele ainda nem havia saído para trabalhar quando a esposa o sentenciou de novo: — Vá ver minha mãe, ela está causando problemas outra vez. Ele detestava a sogra. Na verdade, passara a detestá‑la logo após ela perder o marido. A velha tornara-se insuportável — confusões com vizinhos, com crianças que brincavam na rua e até com o próprio reflexo no espelho; sua memória curta a fazia esquecer a própria fisionomia. César era mestre de obras e havia sido contratado por uma empresa para...

Coisas do pai

Um silêncio sepulcral tomou conta da casa, uma poltrona velha rangia com o balançar de pernas de um homem nervoso, mas em silêncio. A mão do sujeito foi ao bolso arrancando de lá um isqueiro, a outra sob as marcas de sangue foi até uma caixa de charuto que há dias esperava declínio. Ascendeu. A cada trago no cubano, memórias cruzavam a cabeça atormentada do homem, o sangue, o machado, o tremor e nervosismo da primeira morte, em seu anular esquerdo, acima da aliança de casamento havia anel de pedra verde que passara de herança, pai para filho. “ A hereditariedade é uma merda” pensou, dos três filhos, Jorge havia sido o único a assumir o império que o pai deixara, logo se arrependera.  Sua mulher o assistia da cozinha, o balcão de cortes se dava justamente à poltrona da sala na qual pretensiosamente organizou para que pudesse assistir o parceiro.  O olhar da mulher se deteve nos arranhões no pescoço, descera aos rasgos na camisa, o antebraço ainda ensanguentado, pudera sentir a ...

Sua carta desaparecida

Essa havia sido a penúltima carta de amor de Naomi, não pelo contexto das palavras ou por seu conteúdo, mas pela sinceridade. Alguma em coisa em meu coração já esperava por este momento, só não imaginava que pudesse ser tão cedo.  Eu a olhei nos olhos na primeira manhã depois que saímos da maternidade e tinha certeza que no brilho castanhos havia algo quiçá da felicidade, tomamos café, almoçamos e via como encarava nosso filho recém nascido e tive certeza, ele de algum modo a salvaria de toda amargura. Eu estava errado. Não dera sequer 6 meses do nascimento do nosso filho quando encontrei na cozinha sua “carta de amor” escrita com quatro palavras num papel amassado, como se tivesse desistido no processo e retomado a coragem no caminho. “eu não posso, desculpa”. Sobre a pia Naomi deixou uma mamadeira com leite morno, o que me dizia que fazia menos de uma hora que partiu, no congelador algumas garrafas com seu leite materno para congelar, nosso bebê ainda estava dormindo, então...

Janela faminta

Naquela madrugada eu o tinha visto pousar sobre o cercado do vizinho à frente, a noite era quente e a falta de ar condicionado dentro de casa me fazia abrir a janela na expectativa que o ar circulasse diminuindo o terror febril do quarto no segundo andar, ainda estava me acostumando com a cadeira de rodas então evitava me deslocar abruptamente para os outros cômodos poupando esforços caso algo inesperado viesse acontecer. Mas aquele animal negro de plumagem fosca, olhos profundos e caídos também beirava o inesperado ou era o presságio de morte que muitos já esperavam vindo daquela moradia. Fixei meus olhos no animal, observando-o sob a proteção escura do dormitório. Mesmo assim ele me notara o observando e sua cabeça pareceu-me girar em minha direção, nos seus olhos mortos uma luz verde se ascendeu, assustado empurrei-me contra o parapeito da janela tombando minha cadeira, arrastei-me até a cama e deitei com aquela imagem em meus pensamentos, o quarto escuro, a janela esquecida abe...

Mensagem para quem

- Um pedaço de papel? - Sim, juiz. Um pedaço de papel. - Por que essas pessoas se matariam por um pedaço de papel? - Eu não sei, todas as vítimas sem exceções deixaram um adeus. E todas com a mesma frase “Não leiam o papel” - Policial, onde está esse papel agora? O Juiz fitou o oficial, esperava uma resposta positiva, que soubesse do papel. Mas logo se decepcionaria com a resposta. - Não sabemos! Esse é o problema. É como se o autor do papel soubesse que àquelas pessoas se matariam. Parece que ele conta com isso, então vai até o local e recolhe o papel. Bom, isso é a nossa teoria. - Não é possível, mas que droga está escrito naquele papel?! – O juiz estava impaciente. – Me fale da primeira vítima. - Camila Caramez, 20 anos. Universitária. Cursava Engenharia. Conversamos com alguns dos colegas dela e todos pareciam ter uma visão bem positiva dela. “linda” “carismática” “amiga” “otimista” “alegre”. Sem nenhum inimigo aparente. - Sempre há alguém! - Bom, começaram a se...

O Malear de quem ama

- Não foram os cabelos, muito menos aquela maldita boca que deixou Samuel louco de desejo. Não foram as curvas do seu corpo, definitivamente não foi a curva do seu corpo, o sorriso? Talvez, ela tem um sorriso encantador e qualquer um que a olhasse iria à loucura. Tanto homens quanto mulheres, ela sabia disso, ela gostava disso. Não, eu não sei o motivo dela fazer isso. Sei lá, sumir assim do nada deixando apenas uma carta de adeus no computador! Não parece algo que ela faria! - Como sabe da carta de adeus? Em momento nenhum eu falei da carta de adeus. - As notícias correm, eu tinha um vínculo com ela, sabe. - Precisamos encontrá-la, sabe pra onde ela iria?    - Curitiba, ela era louca por Curitiba! Amava o clima frio. - Amava? - Amava, ama. Isso não importa agora. Ela foi embora! - Continue, sobre Curitiba... - Viajamos uma vez para lá. Foi interessante, bebemos muito. Aconteceram umas coisas que eu não esperava. - Que tipo de coisas? - Naquela viajem eu co...

O pé do Seu Gonçalves

O dia já amanhecera frio; o ar cálido dominava a sombria prenunciação do que aconteceria. O ardor divino começou no banho: Seu Gonçalves ligou o chuveiro e esperou uns minutos até que a água esquentasse – pensara em trocar a resistência do aparelho e sempre adiava o compromisso com a incrédula sensação de inutilidade. Gonçalves era homem fiel, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si; esquecera até de se alimentar por ter ficado horas ajudando uma amiga. Puxou a esponja enchendo-a com sabão, esfregou toda a parte de cima do corpo quando o susto veio, ficou encarando os dedos dos pés, ali, desaparecendo diante dos seus olhos. Saltou para fora do banheiro tão ligeiramente que nem pensou em desligar o registro. Foi se secando, encarando o sumiço de parte do seu pé. – Ué, cadê? Era vago, lento, mas ia desaparecendo; foi trabalhar. Por precaução, colocou uma calça e um tênis. Não gostava de médico; em sua cabeça, “logo, logo passa”. Foi para a obra. – E aí, Seu Gonçalve...