— Não, Darlene! Eu não vou passar na casa da sua mãe na volta! — Mas eu estou te pedindo! César tomou as chaves do carro e saiu esperneando. Em sua cabeça, passavam-se diversos xingamentos inimagináveis — alguns sequer existiam — e, ao inventar um novo, ele pegava o caderno no porta‑luvas, a caneta atrás da orelha e escrevia, rindo tanto que chegava a quase se mijar de tanto gozar das próprias piadas. Esquecia o nervosismo, mas logo retornava à feição fria da rotina cansada. Eram oito horas da manhã; ele ainda nem havia saído para trabalhar quando a esposa o sentenciou de novo: — Vá ver minha mãe, ela está causando problemas outra vez. Ele detestava a sogra. Na verdade, passara a detestá‑la logo após ela perder o marido. A velha tornara-se insuportável — confusões com vizinhos, com crianças que brincavam na rua e até com o próprio reflexo no espelho; sua memória curta a fazia esquecer a própria fisionomia. César era mestre de obras e havia sido contratado por uma empresa para...
Imagine que você está sentado(a) em um sofá agora, você se levanta, vai até a cozinha e prepara o café, no mesmo ambiente uma voz abafada vem ganhando tom e ficando cada vez mais alta, essa voz por sua vez cita literariamente cada movimento, cada gesto seu, sua vida neste momento está sendo narrada! Mas você determina suas ações ou suas ações é determinada por esse narrador misterioso? A magia da literatura, é imersiva, misteriosa e apaixonante. Mas que tipo de narrador eu sou? Boa viagem!